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Dilma vence e é eleita a 1ª mulher presidente do Brasil

31 de outubro de 2010

/ by Samuel Rodrigues


Após quatro meses de uma campanha em que temas morais e religiosos ofuscaram propostas concretas sobre temas importantes à nação, Dilma Rousseff é eleita a primeira presidente da história brasileira. A candidata petista derrotou o tucano José Serra em um segundo turno em que a abstenção superou os 20 milhões de eleitores.

Segundo a enquete realizada aqui no Gospel Channel, José Serra ganhou com 136 votos (67%) e Dilma ficou com 66 votos (32%). Os evangélicos apoiaram Serra nessa reta final.

Com mais de 98% dos votos apurados, a sucessora de Luiz Inácio Lula da Silva não vai alcançar a votação de 2006 do atual presidente. Naquele ano, Lula obteve mais de 58 milhões de votos, e Dilma soma até o momento cerca de 54 milhões.

Na comparação com o primeiro turno, Serra conseguiu reverter o resultado favorável à petista no Rio Grande do Sul e no Espírito Santo. No início do mês, Dilma venceu em 18 Estados, Serra levou em oito, e Marina Silva foi a mais votada no Distrito Federal. As urnas abertas neste domingo deram a petista vitoriosa em 15 Estados e no Distrito Federal, e o tucano vencendo em 11 Estados.

Dilma confirmou a força do PT no Nordeste, vencendo em todos os Estados da região, em alguns deles com votação superior a 70% dos votos válidos como Maranhão e Pernambuco. A presidente eleita também teve uma vitória importante em Minas Gerais, reduto do PSDB que elegeu o tucano Antônio Anastasia em primeiro turno.

Trajetória

Quatro segundos. Nenhuma palavra. Uma mesa distante da do chefe. Essa foi a participação de Dilma Rousseff na primeira propaganda eleitoral do candidato Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Oito anos depois, ungida por seu mentor para sucedê-lo, a ex-ministra, na primeira disputa eleitoral de sua vida, transcendeu a fama de gestora sisuda para se tornar a primeira presidente da história brasileira.

Sem programa, um de seus desafios será provar que não é apenas uma sombra de Lula, dizem analistas. Além da confiança do presidente, o grande trunfo da petista foi a política de alianças adotada pelo PT e pelo próprio presidente para elegê-la. Graças ao apoio formal de PMDB, PCdoB, PDT, PRB, PR, PSB, PSC, PTC e PTN, a campanha de Dilma ganhou força com o início do horário eleitoral obrigatório. Com isso, a candidata ganhou personalidade.

Ficou por pouco o triunfo já no 1º turno, depois de uma onda de rumores e outra de denúncias envolvendo seus aliados. Para vencer na votação de 31 de outubro, a ex-ministra-chefe da Casa Civil teve de renovar seu pragmatismo assinando compromissos com religiosos, iniciar campanha negativa contra o rival José Serra (PSDB) e trocar a gagueira que a abatia nos idos de abril, na pré-campanha, por aquilo que chamou de “assertividade”, mas que foi considerado agressividade pelos adversários.

No caminho para ser hoje a presidente eleita do Brasil, Dilma sofreu para ganhar trânsito com políticos em geral e com eleitores mais animados em ver seu mentor do que a ela própria.

Precisou de dois Josés Eduardos para guiá-la: Dutra, presidente do PT, e Cardozo, secretário-geral do partido. Obediente e pragmática, atendeu prontamente aos conselhos do marqueteiro João Santana. Adotou novo visual.

A presidente eleita forjada na campanha é diferente da especialista em energia que, com seu temperamento forte, foi alçada ao primeiro time do governo após o escândalo do mensalão, em 2005.

Neste ano, tentou aliviar a imagem da mulher que passava descomposturas em colegas ministros. “Sou uma mulher dura cercada de homens meigos”, costuma dizer, em tom de ironia. Buscou evitar confrontos, mas às vezes partiu para o ataque, principalmente em momentos-chave do segundo turno.

Filiada ao PT há menos de uma década, a ex-pedetista Dilma conquistou seu primeiro cargo público pelo voto. No fim dos anos 80, ninguém pensava que a secretária de Finanças de Porto Alegre iria tão longe.

O mesmo se passou com quem a visse na mesma pasta do governo gaúcho, anos depois. Agora ela terá quatro anos para provar se é capaz de atuar como protagonista, e não como uma mera coadjuvante.

Sem programa

Dilma não precisou de uma Carta ao Povo Brasileiro –nos moldes da divulgada por Lula antes da campanha de 2002, indicando que não faria mudanças radicais na economia.

Mas, no segundo turno, comprometeu-se com questões religiosas. Após uma campanha contra ela em igrejas católicas e templos evangélicos, prometeu não enviar ao Congresso projetos que interfiram nesses assuntos. Assim, estancou a polêmica sobre sua posição a respeito da liberação do aborto.

“Em uma campanha com candidatos tão parecidos, essa carta foi um momento importante porque evitou maior acirramento e colocou as coisas no lugar”, disse ao UOL Eleições o cientista político Luciano Dias, do Ibep (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos).

“A Dilma neobeata foi mais um sinal de pragmatismo. É um sinal de que a governabilidade será tão ou mais importante do que foi para Lula, já que ela não tem o mesmo estofo”, afirma Dias.

A presidente eleita insistiu tanto na defesa de avanços recentes que nem sequer apresentou plano de governo. “Sabemos o que acontecerá na parte econômica? Não. Sabemos se haverá reformas? Não. O que sabemos é que Dilma terá a sombra de Lula do começo ao fim de seu governo”, afirma Cláudio Couto, da FGV (Fundação Getúlio Vargas). "O sinal dado por sua campanha é de que as coisas vão continuar mais ou menos como estão.”

Ainda assim, com tantas dúvidas sobre o que virá, não houve solavancos no mercado financeiro. Está subentendido que serão mais quatro anos de autonomia não-formal do Banco Central, de câmbio flutuante, de investimento em infraestrutura e de medidas macroeconômicas em fatias, raramente em forma de pacotes. “A conversão do PT já está feita. Lula vai sair carregado nos braços, e o mercado já não liga”, afirma Dias.

A volúpia do PMDB e de aliados à esquerda, como PSB e PCdoB, mais poderosos depois das eleições 2010, também acende dúvidas sobre se a presidente eleita será capaz de acomodar tantos aliados de primeira hora em seu governo.

Adversários acusam e aliados reconhecem: Dilma não terá a mesma capacidade de articulação exercida por Lula. “E seria diferente se Serra vencesse?”, pergunta Couto.

Sem teflon

Na campanha, a presidente eleita mostrou que aprendeu mais uma lição de seu maior defensor: deixar pelo caminho aliados que se envolvam em práticas suspeitas.

Na reta final das eleições, Dilma sofreu ataques dos adversários por conta de sua ex-braço direito na Casa Civil, Erenice Guerra, demitida do ministério depois que seu filho se envolveu com lobistas. Lula fez o mesmo com José Dirceu e Antonio Palocci.

“Não vou aceitar que se julgue a minha pessoa com base no que aconteceu com um filho de uma ex-assessora”, disse Dilma. As pesquisas citaram o caso Erenice como principal fator para a disputa do segundo turno.

“A popularidade do Lula é resultado de décadas. A maior parte da popularidade de Dilma não vem dela mesma”, afirma Dias, do Ibep. “Até pela folgada maioria no Congresso, ela será mais observada pela mídia.”

Alguns dizem que Dilma esquentará o principal assento do Palácio do Planalto para que Lula retorne em 2014. Outros preferem vê-la como uma mulher forte, que sobreviveu à prisão e ao câncer para golpear um cenário político repleto de caras antigas. Uns tantos a consideram uma burocrata que terá dificuldades para conduzir o país por falta de ginga com os políticos de Brasília.

Com uma trajetória que só começou a ser conhecida há poucos meses, talvez o Brasil precise de quatro anos para saber a resposta.

Faltam referências –e plano de governo divulgado– para definir-se o que Dilma buscará de diferente em relação a Lula. Se é que fará isso. O dado concreto –como a própria gosta de dizer– é que ela ascendeu de figurante em 2002 a estrela em 2010.

Carlos Bencke e Maurício Savarese
Do UOL Eleições
Em São Paulo

DILMA ROUSSEFF
PRESIDENTE DO BRASIL


A presidente eleita Dilma Rousseff declarou na noite deste domingo, logo ao sair de sua casa, no Lago de Sul de Brasília, que vai "honrar a confiança" dos eleitores que votaram nela neste segundo turno.

- Vou honrar a confiança que os brasileiros e brasileiras depositaram em mim" - disse. Dilma segue em direção a um hotel para fazer seu primeiro pronunciamento como presidente.

Dilma foi eleita com mais de 55,4 milhões de votos. Até as 21h40m deste domingo, 99,42% haviam sido apuradas. O candidato do PSDB, José Serra, ficou com 43,5 milhões de votos.

A vitória foi confirmada pelo TSE com 92% das urnas apuradas.Em entrevista coletiva, o presidente do Tribunal, Ricardo Lewandowsky, comemorou o tempo recorde registrado este ano para anunciar a vencedora da eleição.

- Eu tenho a grata satisfação de anunciar o sucesso do nosso sistema eleitoral e o avanço desta tecnologia genuinamente brasileira. Porque nas eleições gerais de 2002 nós pudemos anunciar o resultado às 23h nas eleições gerais de 2006, às 21h30, e nestas eleições batemos um recorde, eu acredito que é um recorde em termos mundiais. Nós pudemos anunciar o resultado às 20h04 - disse Lewandowski.

O resultado que já dava vitória matemática de Dilma foi anunciado uma hora depois do encerramento das urnas no Brasil às 19h, por conta do fuso horário no Acre, Amazonas, Roraima e Rondônia e do horário de verão, que só está em vigor em 10 estados brasileiros.
Em site, Dilma agradece a vitória

Dilma já agradeceu a vitória obtida neste domingo no site de sua campanha.

A página traz a mensagem "Obrigada, Brasil" com a assinatura da ex-ministra-chefe da Casa Civil, escolhida pelos eleitores para suceder Luiz Inácio Lula da Silva no Planalto, junto com uma foto em que Dilma faz o sinal de positivo com as duas mãos.

O site ainda dá destaque ao fato de Dilma ser a primeira mulher eleita para presidir o país.
PT anuncia festa para a comemoração da vitória de Dilma

O PT informou que várias cidades fazem festa para comemorar a vitória do partido na disputa presidencial. Em, Brasília, a festa será na Esplanada dos Ministérios, na comemoração dupla com a eleição do governador do DF, Agnelo Queiroz (PT). Segundo nota divulgada pelo partido, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também irá participar do evento.

Já em São Paulo, haverá festa da militância na avenida Paulista, com as presenças confirmadas de Alceu Valença, Leci Brandão, Vai-Vai, Teatro Mágico e Netinho.

Ao votar, Dilma diz que buscará o diálogo

Dilma afirmou que, se eleita, buscará diálogo com todos os setores, mas vai governar com sua coligação a partir de 1º de janeiro. Pouco antes de votar em uma escola em Porto Alegre, Dilma ressaltou que após este domingo terá início "uma nova fase da democracia". Questionada se, caso eleita, chamaria a oposição, ela disse que governaria para todos, mas não com todos. Seu candidato a vice, Michel Temer (PMDB), também já votou, em São Paulo.

- Vai ser exigido de quem passar a assumir o governo que tenha sentimento republicano. O meu compromisso democrático é de governar para todos. Agora a minha coligação, que foi quem me trouxe até aqui, é com quem eu vou governar - disse a petista, a jornalistas, após tomar café da manhã com lideranças políticas locais.

Ministro diz que orçamento de 2011 pode sofrer ajustes

Em Curitiba (PR), o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, afirmou que o Orçamento Geral da União de 2011 pode sofrer ajustes de acordo com as prioridades do presidente eleito:

- Já temos um diálogo aberto com o Congresso Nacional para que, assim que iniciarmos o período de transição, o novo governo possa solicitar algumas alterações no orçamento. Deixamos margem de recursos para viabilizar os ajustes - disse.

Segundo ele, isso será feito antes da votação do Orçamento de 2011, prevista para dezembro. O ministro disse, porém, que prioridades orçamentárias devem ser mantidas, como as destinadas a manter o ritmo de crescimento, a inflação sob controle e a continuidade de programas de distribuição de renda e inclusão social. E como os orçamentos estão condicionadas às respectivas receitas, o novo governo deve estabelecer metas.

Ciro diz que falta de vivência política será o grande desafio de Dilma

O deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) disse neste domingo em Fortaleza, pouco antes de votar em trânsito, que Dilma Rousseff é uma grande administradora, sabe produzir resultados, mas não tem vivência política. Segundo o deputado, essa falta de experiência "será o mais grave desafio disparado" da petista, se eleita presidente, porque ela terá que lidar com uma base de sustentação muito heterogênea.

Ciro já fez diversas críticas à "frouxidão moral" da aliança que dá apoio à candidatura de Dilma, que inclui também o PMDB, o qual já chamou de "ajuntamento de ladrões".

Ciro deu essa declaração pouco antes de votar em trânsito para presidente da República, na seção 841 da Escola de Saúde Pública, em Fortaleza.

- A Dilma tem um talento muito grande como administradora. Isso eu já vi de perto. Tem intimidade com as coisas todas. Sabe produzir resultado. Isso é uma coisa que a administração brasileira se ressente muito. Entretanto, a ela falta a experiência, a vivência política que me deixa sempre com alguma preocupação. E a heterogeneidade de sua base de sustentação é disparado o maia grave desafio.

Lula pede continuidade de projetos a novo presidente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva votou na manhã deste domingo em São Bernardo do Campo, em São Paulo, e pediu que o novo presidente mantenha a trajetória de crescimento em curso no país. O presidente disse ainda esperar que Dilma Rousseff (PT) faça mais pelo Brasil do que ele fez, e afirmou que o tucano José Serra, adversário da petista, sairá menor do que quando entrou na eleição.

- O Brasil precisa continuar este momento extraordinário que está vivendo. Um momento quase mágico para um país que passou o século 20 com tantos dissabores. Espero que o novo presidente mantenha a trajetória de crescimento em curso no país - disse o presidente.
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