Acampamento com 100 mil católicos tem funk, gays e paquera

Ao passar o fim de semana em um acampamento católico, nossa repórter aprende funk cristão, conhece fiéis inusitados e ganha até cantada.

SEXTA 12h

Viajo 200 km para o que promete ser uma versão carola de Woodstock: 48 horas acampada ao lado de 100 mil jovens católicos, com direito a fila para banho, frio na barraca e padres tratados como rockstar.

O evento, que se chama PHN (Por Hoje Não), de "por hoje não vou pecar", é da Canção Nova, movimento que tenta modernizar a igreja.

Na porta, jovens ziguezagueiam no skate em direção a três meninas com short jeans curtinho. Nenhuma se faz de rogada. É como desembarcar numa micareta para Jesus.

SEXTA 13h

O missionário Ricardo Sá, 49, de blusa apertada e cabelo brancão, um Lulu Santos da cristandade, prega para dezenas. Defende que sexo fora do casamento é pecado. Às damas, pede paciência: "O amor não está no bar da esquina".

É ele o idealizador do grupo virtual Namoro Cristão, um Par Perfeito para católicos. Você preenche um perfil e troca ideia com outros usuários.

Ricardo diz que dá "uma forcinha para os solteiros que querem namorar alguém com os mesmos valores".

Karolyne, 16, acena com entusiasmo à pregação. O namorado dela não é cristão. "Vim buscar fundamentos para ter um namoro santo."

Ela e a amiga Paola, 17, vieram de São Gonçalo (RJ) para o PHN. Nesse mega-acampamento em Cachoeira Paulista (SP), o objetivo é dizer não a drogas, álcool, sexo...

"...mas aqui dá de tudo!", diz Paola. "Os meninos comentavam: 'Pô, você acha que no meio do mato não vai rolar nada?'. Muita menina dá mole."

Elas também reclamam da presença de "coisas estranhas". Paola está injuriada. "Tem muito gay, e a igreja é contra o homossexualismo... E o povo com aquela roupinha colada, cabelinho na cara... Tá fazendo o que aqui?"

SEXTA 16h

Encontro Gabriel, 18, perto de uma cruz gigante e iluminada. Com franjão e bermuda justa, ele se diz gay e não está nem aí para os cochichos do povo. "Alguns falam: 'Nossa, que pecado ser assim'. Mas pecado seria se estivesse fazendo algo errado dentro do camping."

SEXTA 17h

Procuro um canto para a barraca. Cada um no seu quadrado: o camping é dividido entre meninos, meninas e famílias. Minhas vizinhas se divertem com o funk "Sou Foda" no celular. Rezo por uma boa noite de sono, mas algo me diz que as preces não serão atendidas.

SEXTA 18h30

Num galpão, acontece um campeonato de b-boys dançarinos de break que giram com a cabeça no chão e pernas pro ar. Saúdam Jesus como "o b-boy de todos os b-boys", pois só Ele "faz movimentos radicais na alma".

SEXTA 21h

Mais de um grupo me fala do famoso tubão: truque de misturar vodca barata no refrigerante para dar olé nos seguranças o álcool é vetado no PHN.

Encontro uma ou outra garrafa PET suspeita no camping. Por perto, copinhos com um líquido nada bento. Os donos desconversam. Quem quer beber, eles contam, vai para uma praça próxima à Canção Nova.

É lá que conheço quatro amigos, de 15 a 17 anos. Na mesa, guaraná Dolly "não batizado", juram. Só um namora. O resto está atrás "de pegação".

"E você, não quer sentar e tomar guaraná?", me pergunta o mais saidinho. Rio, recuso e vou embora, não sem ouvir um "o guaraná não está batizado!".

SEXTA 22h45

Esbarro com o mesmo grupinho na sede, mais cabisbaixo. Pergunto do placar com as meninas. Todos zerados.

SEXTA 23h

Para ser funkeiro cristão, tem que ter disposição, tem que ter habilidade. No auditório, em vez de "créu", a galera balança o popozão: "Céééééu, céééééu". Um MC emenda: "Bate na palma da mão quem tem Jesus no coração!".

SÁBADO 1h

Quando vejo jovens jogados no chão, imagino o pior. No mínimo, o tubão trouxe uma ressaca de 40 dias e 40 noites. Mas não. Só estão em "repouso".

Funciona assim: um aprendiz de missionário encosta um terço na testa das pessoas. Diz que o Espírito Santo as tocará. De olhos fechados, elas são deitadas no chão. A maioria descreve ter visto "um clarão".

O rapaz sugere que eu passe pela experiência. Fecho os olhos, sou instruída a me entregar a Deus, deitam meu corpo e... nada. Mentira: tem a câimbra chatinha na perna. "Você não se entregou", ele diz.

SÁBADO 2h

Um dos hits do PHN rola de madrugada: um luau com centenas de jovens. Ontem, conta o missionário que lidera a farra, teve "a libertação". No rito, todos devem jogar fora os seus pecados. Houve quem se desfizesse de camisinha, maconha e até pedras de óxi, diz.

Muitos vão dormir às 4h. Acordarão logo mais para pegar a primeira atividade do dia, dali a quatro horas. Não sem peso na consciência, premedito o pecado da preguiça.

SÁBADO 10h

Levanto no pulo com uma voz convocando para a missa das 11h. Encaro 20 minutos na fila para a ducha quente (em horários de pico, há espera de até três horas e meia). Algumas meninas se descabelam em busca de tomadas para chapinha e secador.

SÁBADO 14h

Quarenta minutos na fila do refeitório, mas o rango é show: R$ 7 pelo pratão de arroz, salada e carne com gosto de carne.

SÁBADO 14h30

No centro de evangelização, quase 70 mil pessoas cantam, dançam e deliram com o missionário Adriano Gonçalves, 28, autor de "Santos de Calça Jeans". Moderninho, o livro usa Homer Simpson e Chapolin Colorado para falar de religião.
"Tem quem ache que Deus vai descer do céu como Super-Homem!", Adriano brinca. Ao fundo, a musiquinha do herói do cuecão vermelho.

SÁBADO 22h30

Os shows seguem, e vou comer. Meia hora de fila. O garoto na frente paga seu lanche de R$ 6 com moedas de dez centavos. Treino a paciência cristã.

DOMINGO 11h

Bem menos carrancudo do que seu xará do futebol, o missionário Dunga, 43, criou o PHN há 13 anos. Com sua positividade, me lembra um Bono Vox da igreja.

Quando jovem, estava mais para Keith Richards: "Dos 14 aos 19, cheirei cocaína, usei maconha". Até ter "uma experiência com Deus". Por isso, Dunga acha bom que uma certa juventude transviada vá ao PHN, mesmo que para zoar, e descubra a cristandade por tabela. "Queremos essas pessoas aqui!"

Filipe Santos, 23, é filho de Dunga. Nunca ficou de porre e diz que vai esperar o sexo depois do casamento está noivo.

Ele cresceu na Canção Nova, onde cerca de 400 pessoas moram como numa comunidade hippie sem sexo, drogas......mas com rock 'n' roll. Filipe toca baixo em uma banda de rock cristão. Ao saber que Beatles ocupa seu altar musical, lembro que não era exatamente hóstia que John Lennon gostava de ingerir.

Ele pondera que ir contra o sistema, hoje, pode ser justamente abraçar o bom-mocismo. E que não há nada de errado em louvar o Senhor com barulheira. "Construímos essa imagem de que igreja é coisa de velho. Mas não é."

DOMINGO 12h

O acampamento, que recebeu os primeiros participantes já na quarta-feira, começa a ser desmontado. Pego a estrada de volta a São Paulo. Não consigo deixar de pensar naquele hit da Banda Mais Bonita da Cidade. "Meu amor, essa é a última oração..."


ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
ENVIADA A CACHOEIRA PAULISTA (SP)
Folha de São Paulo - Gospel Channel RCSP
Acampamento com 100 mil católicos tem funk, gays e paquera Acampamento com 100 mil católicos tem funk, gays e paquera Reviewed by Samuel Rodrigues on 11:49 Rating: 5
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